Ichbineinkind


18/03/2006


 

 

DIVINDADE

 

Humano errôneo em natureza, conforme as disposições

Sou carbono inerte, de míseras funções

Contemplador das estrelas

Tão perto e tão distante

Luminosas e quero vê-las, tê-las

 

Dizem as histórias, as que fundam a ciência

Que nada é a luz, além da total ausência

Mas se lá ainda permanecem a irradiar

O suplício dos astros, pretendo amansar

Desapego à dor e o materialismo

Ainda que transcenda minha total existência

 

Minha vontade beira o discrepante

E elas o incendeiam, radiante

Espadas a gladiar, arfante ante

O espaço para onde se projetam

Lugar nenhum, a anti-matéria

Estéril aguardar

Cada vez que se estira o olho artificial

 

Enquanto preso à gravidade, nada posso

Mover-me por quilômetros sem pairar

Qualquer que seja a forma, o adensar

Observá-las em sua criação, o criador

Sem abdicar deste corpo, atenuador

 

Eu aqui, nauseado num repente

Desfez-se a massa e a vertente

Os planos cardinais e a equação

Tornando-me pura matemática

Avessa à lógica e comparações

Escrito por Marcel às 13h23
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Quando plana e sucinta meu ser

Suspenso ao ar, destituído de percepção

Munido apenas da divina sensação

Tornar-me parte de um tudo indizível

Que se faz concreto e abstrato

Gotículas de rosas no palato

Que dota o numeral e dele se gera novamente

Lacunas e vácuos, onde me faço intermitente

Incompreensível, dada sua amorfia

Tudo destrói e ao mesmo tempo cria

Enquanto é senhor e a ele se alia

Mas que não se permite repreender

No transcorrer, poente e nascer

O tempo é extensão do teu ser

 

Desconheço meu destino e esqueço o próprio sentido do deslocar

É no mais pacato momento que estou a me fascinar

Quando orbitam-me os anéis e a desconstrução

Explodindo em incontáveis pedaços e grãos

Dotando o infindável microcosmo doutros mundos

Que vigoram na beleza, repletos de perfeição

 

Implícita a força pela qual se dá a ordem, frações, diminutos

O movimento elíptico das estruturas, a reverberação dos astros

Os elementos que se tingem em fogo, transbordando os céus

Combinando-se entre si, os resquícios metafísicos

Notórios em cada faceta dos objetos

 

Sinto-me sólido, finco-me em terra

Mais que granular, tudo se encerra

Sinto-me líquido, choro-me um mar

Mais que viscoso, prestes a desaguar

Sinto-me vaporoso, rogo-me ar

Mais que impalpável, a dissipar

Escrito por Marcel às 13h22
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Guerreiro intrépido, apenas munido

Lanças pontiagudas criadas do ungido

Dos cometas, apartados e partidos

Os corações e a perda dos sentidos

Astrônomo visionário, desquerendo

O que vê e o que pensa estar vendo

Para além das constelações, cintila

O primeiro astro e sua descoberta, sibila

 

Adiante de mim a mais pura anulação

Vazio, sem geometria ou composição

Existente pelo que ao redor se vê ruir

Famélico pelas nuas e luas a deglutir

Perpétua escuridão que o faz invisível

Centrípeto emudecer, dimensão alienável

 

Nada sei porque fui destituído do pensar

Tudo sei porque me permiti assimilar

 

Mais adiante, o olho eternamente aberto, eis o gigante solar

Conquistador das relvas por direito, chamuscador do mar

Labaredas vertiginosas, demonstração de seu poder

Os dedos alongam-se mais e mais até esvanecer

O núcleo catalítico e as implosões simultâneas

Então refaz-se um espadachim e suas vesânias

 

Noutro lapso, um amontoado de gelo

Vil e inquebrável, sob ele cai o selo

Perpetuador da infertilidade, dos cristais

Onde encerram-se inertes os saturnais

Laguna de ácido petrificado

Mortalha que se faz de fado

 

Constelação de Andrômeda

Dedilha os tendões do torso

Faz-me livremente absorto

Quase que diluindo matizes e os demais elementos

A sinfonia em homenagem os mais puros sentimentos

Ecoa por todo universo e em mim reverbera

De volta à carne, desfalecendo-me em quimera

 

De guerreiro a astrônomo, ofuscar

De fogo a gelo, um simples soprar

Vácuo e ar, eu cá a me admirar

De macro a nano, a conjunção fractal

Ele e eu, infinitude em granulo de sal

 

 

Marcel Dias Pitelli (7 de março de 2006 – 23:35h)

Escrito por Marcel às 13h10
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26/01/2006


 

 

"Os paralelismos da criação"

 

 

Numa rua qualquer, lhe veio o sinal

Primeiro o suor, depois os gritos

Neste exato momento são três e trinta e três

O mesmo número de graças que receberá

 

E só porque cantaram as quatro rodas

Deram-lhe a maca e o pano a limpar

A criação dos penosos nove

Tudo se deu no mesmo e exato instante

Em que entrou em coma um tal de Ceará

 

Já são três e trinta e nove e não vai dar tempo

O bolo ainda está no forno, a irmã vai se atrasar

A festa é às quatro e pouco. Melhor se aprumar

O relojoeiro parece não ter posto óleo no mecanismo

 

Três e quarenta e um, nasceu mais um

Saiu da mãe, olhou para o irmão atento ao tempo

Que derrete pelos dedos quanto mais se vai atrás

Mirou o céu e o sol viu que estava a parir também

A luz que desanuviou outra porção da cidade

 

Faltam quinze para as quatro

E Fabiola nem pôs os sapatos

Como espera chegar a tempo?

 

‘Tempus Fugit’, queridos alunos!

Professor vitrola, é o que eles dizem

O homem fica nervoso e começa a andar

Mais ainda quando foram lhe avisar

Gira e gira tal qual o relógio da mãe

Não sabe onde vai parar nem quando

 

A velha marca o pulso de tão apertadas as pulseiras

Tão cega pelos filhos, que não encontra o furo

O tempo lhe passou como se fora ontem

O primeiro beijo, a primeira vez

O tabefe da mãe e as cantigas de realejo

O pio do canarinho forjando as badaladas

Escuta o telefone e vai voando contar à tia

 

São três e quarenta e nove,

Mas repete pelo avesso o emplumado

‘Onze para as quatro, onze para as quatro’

Cada dia que passa, parece ser mais rápido

Cada um que passa, nem foi e já passou

Escrito por Marcel às 22h57
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Cont.

Quem espera, dificilmente alcança

Se lembrar, os ponteiros congelam

Se esquecer, é sempre alarde

Nunca dá tempo

Não vai dar

Não vai

 

No cair da noite, outro rebento

Trigêmeos! A mulher grita quando atende o telefone

Eutanásia para o Joaquim, e a velha que caiu da escada

Melhor acalma-la até que chegue o filho

 

Derrubaram as torres gêmeas e ainda estamos aqui

Transtornaram Columbine e eu nem vi

Os miolos de Kennedy e os meus

Adeptos do maldito tiquetaquear

Um tíquete para a menina ver o U2

Para o show dos Rolling Stones

E o parquinho ao lado

A roda gigante é perfeita

 

Três e cinqüenta e cinco

E nada de resolverem o causo do trema

Tanta regra e contradição, ninguém aguenta

Em hora dessas, melhor não apressar

 

Ainda são três, cinco, cinco

Minha mãe diria cinco para as quatro

O sexto do dia, a dança terrestre pela nota do sol

Tal como as estações, tão afilhadas a ele

Não mais do que o menino, ainda atento

Observador das oscilações e o vento

Lá da janela, avista o toró avizinhando-se

Ai se não tivessem socorrido a coitada!

 

Outro lampejo e começa a chorar

Alerta a mãe e o irmão mais velho

Então cai o sombreado sobre a construção

A chuva reina solenemente, sem nunca abdicar

Chuvisco chato, a tudo transitar e inundar

Desse jeito, nunca hão de chegar

 

Lembra-me a esperança do dia seguinte

A forma como vive o homem contemporâneo

Mais fácil esquecer os erros e se prostrar ao futuro

Viver sem rumo, subalterno ao senhor dos eixos

Da mesma forma que ele é para com os magnetos

Escrito por Marcel às 22h56
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Cont.

 

Irretroativo tempo, de hora em hora são sempre os mesmos

Minutos. Apenas cinco para tirar o bolo do forno.

Marca o marcador, apita o temporizador

Senão vai queimar, igual ao hospital antes da chuva

A mesma que inunda os bairros por aqui e lá

 

Quatro e dois e nada do que digo o fará parar

Sua impetuosidade é tanta, e a sincronia nem se fala

São tantos séculos que nem se pode calcular

Quando foi que teve inicio o big bang?

O mesmo número de pontículos que há no céu

 

Acabou, e agora o professor lhes toma as provas

Diz que as corrigirá, mas as notas só virão mês que vem

Quatro e cinco e Fabiola atrasou, saiu de casa agora

Mal chegou o pai, e já a levou

Ela e a vó, cheia de hematomas

O bolo quente, sobre o colo

 

Quatro e sete, na rua de baixo, outro moleque cai do patinete

No hospital, o arteiro fica ao lado da velha

Caíra da escada porque olhava demais para o relógio

O pássaro assoviou e a filha berrou comovida ao telefone

Então lá se foi ela escada abaixo

Toda arrumada, a garota antes teve de acudir a vó

 

Quatro e dez e a chuva parou

Melhor parar de contar o tempo também

‘Tempus fugit’, diria o mestre e pai intolerante

Não que se esvai aos nossos dedos

E sim por ser dono de si e do caos que reorganiza

Tirar a água de um lugar para outro

Trocar a inocência de um por outro

 

Passar despercebido, porque mente humana

Não é capaz de lembrar nitidamente

A razão de ficar tão presa aos horários

Além do conforto e a previsibilidade

Ainda assim, soa quase como um ponteiro que avança

Enquanto outro menor retrocede

Como se ontem e hoje não tivessem mais correlação

Os dias parecem iguais, mas igual é o que se faz deles

 

Quatro e quinze e o bolo está uma delícia

Levar para a festa na maternidade

Pelo terceiro que foi azul à incubadora

No meio do temporal

E sobreviveu

 

‘Depois que se recuperasse, a velha seria bisavó’

Foi o que disse a mulher enquanto lia para a barriga

Estavam presos no transito há horas

Quatro e dezessete, e nem um centímetro fora do lugar.

Virou a página e era outra vez

 

 

Marcel Dias Pitelli (26/01/2006 – 16:18)

 

Escrito por Marcel às 22h56
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17/01/2006


Visões da Cidade

 

Por entre os rostos e a falsidade

Entre os colossos e a sagacidade

Onde posso ser assassino e vítima a qualquer momento

Por mais que seja cidadão, por mais que me faça atento

Cá estou entre os abutres comedores de gente

Tomado pelo medo e sem defesa aparente

Ainda assim, mais vivo do que nunca

 

Por entre os desejos insaciáveis das gentes

Os incineradores de sonhos e suas serpentes

Onde cada segundo não é suficiente para nada

Onde fazer nada não passa da mais reles piada

Cá estou em meio ao embate dos individualismos

Tomado pela ambição e tantos outros moralismos

 

Minha presença é completamente insignificante

Minha natureza numérica mais que relutante

Minha única esperança, o travar de mais um dia

Nem que sucumba, hão de acelerar a polia

Nem que sufoque, hão de impregnar meu ar

Trarão as novas tecnologias para me viciar

Mesmo que me esfacele aos mil pedaços

A recompor-me frente às rajadas e balaços

Doses homeopáticas para dilatar meus nervos

Até que nos façamos teus acabrunhados servos

 

Todos os dias, pressinto a tristeza em seus corações

O vazio que os tomou sem que lhes dessem as lições

Sempre que os vejo, algo estão a consumir

Afastar os dedos e ver deles as moedas cair

Todos os dias, quando penso estar sanado

Vejo que também não os tenho amado

Quando penso em escapar para a solidão

E o simples ato de pensar é todo em vão

 

Quando acho que não será aqui nem comigo

Quando tantas vezes não mereci um castigo

Defronto-me com os fantasmas e corruptos

Atormentam-me esses e tantos outros vultos

 

Eles me cercam por mais que procure desviar

Eles me perseguem onde quer que eu vá

Transcendem o concreto e espiam pelas janelas

Queimam os interruptores e apagam-me as velas

Quero crer que a vida se componha de luz

Mas nada vejo além de uma ferida em pus

Escrito por Marcel às 00h00
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Continuação

 

Eles tomam forma quando menos espero

Me fazem ansiar para aperfeiçoar o esmero

O susto de todas as manhãs logo que acordo

Quando vou confessar e de lágrimas transbordo

Quero crer que a bondade não tenha se extinguido

Mas o grito dos inocentes ecoa tal qual sustenido

Eles sempre zombam de minha hipocrisia

Enquanto me provocam toda espécie de avaria

Perfuram meus pilares e abalam a sustentação

Umedecem as paredes e me lacram no alçapão

Para que lá eu fique eternamente a reiterar

Toda minha natureza amorfa antes de me esgüelar

Retiram-me toda a propriedade e me privam de comer

Me levam também as roupas para que não possa me aquecer

Tenho medo de jogar xadrez com a própria insanidade

Medo que me vença, fazendo prevalecer a mentira à verdade

 

À ponta da língua, deixam-me apenas uma gota d’água

Para que a fracione e a torne farta junto da mágoa

Dia após dia, engolindo secas as minhas agonias

Nas noites escuras, tapeio o cômodo de paredes frias

Mas ainda pulsa minha vontade

 

Eles me entorpecem usando da névoa viciante

Chamam-me de tolo quando mostro ser infante

Enchem-me de esperanças e incerteza

Para depois ostentarem o horror à beleza

Ainda acredito e estou de olhos abertos

Ainda sei que meus pensamentos são certos

 

Quando clamo por socorro, estendem a mão

Mas quando a alcanço, a puxam pelo vão

Quando grito de pânico, eles trazem o afago para me ninar

Mas logo que durmo, ajeitam a caixa onde me encerrar

Ainda sei diferir verdade de mentira

Por mais que a mídia me interfira

 

Eles me fazem perceber do jeito mais cruel

Que em formas e trejeitos eu não passo de um réu

Avesso a mim mesmo por discordar de sua lei

Tão negro o coração, só sei que não sei

Eles atolam meus pés no mesmo lamaçal em que coabitam

Suas criações inaptas, que pelos prazeres se aviltam

Fazem-me perceber que a única forma de reconhecer os sentidos

É manter-me odiando tudo e a todos até que os ideais sejam exauridos

Não sabem que neste corpo pulsa uma mente criadora

Que não se vende por miúdos nem se penhora

Que tudo podem tirar e usurpar de mim

Mas a identidade, nunca irão dar-lhe fim.

 

Escrito por Marcel às 23h59
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11/01/2006


Um tanto de força a se empregar para destrancar a maldita rangedora, entravada no piso encharcado de cupins. Não foi suficiente a chave, tampouco a maçaneta. Dois empurrõezinhos e uma trombada daquelas. Abriu com tanta velocidade, que a folha se chocou à parede e nela ficou. Pudera. A janela aberta convidava a brisa das mais ensurdecedoras. Adentrava o cômodo e lá ficava a serpentear por entre os móveis e parafernálias. Erguendo lençóis e expondo as bonecas de face descascada. Girando o lustre pendente que não cedia ao toque do interruptor.

O facho solar e incessante. Era por ele que se via inerte a poeira, suspensa e fazendo projetar a geometria da janela. Ainda assim, a penumbra prevalecia, conferindo aos demais objetos o aspecto amedrontador. Chapéu era cabeça e lustre, chapéu. Cadeira virou senhora e tudo o mais naquele mausoléu.

Havia, no entanto, algo que lhe chamou a atenção. Recostado ao roupeiro, estava coberto por um véu amarelado. Não fora o fecho, nada disso teria acontecido. Mas agora que sopra o vento e sua melodia, o pano baila, deixando expostas algumas das frações do sulfeto. Ora refletia, ora escondia. O sol intermitente, o reflexo aguçando a mente.

Comichão daqueles. Tal foi a curiosidade, que se aproximou para vê-lo. Pisoteou algumas caixas e evitou outras, mas já o tinha à frente. Ainda coberto, alisou sua estrutura à medida que os dedos começaram a tremular. Não suportou. Numa puxada só, expôs o gigante retangular. Imponente e maciço, nada o faria sair de lá.

De frente à superfície platinada, primeiro notou os entalhes na moldura. Belamente ornados, pareciam não emanar nada de bom. Criaturas selvagens entre espinhos e folhagens. Os dentes avantajados, as faces entrelaçadas. Quase emitiam o som característico de cada uma das espécies.

No entanto, nada é tão atraente quanto o próprio semblante a sua frente. Refeito a sua imagem, de nada carece para passar-se pela dona. Em cada uma das minúcias, a perfeita simetria. Ainda assim, mais bela que ela, a silhueta esbelta e as formas hipnóticas aos famélicos olhos dos homens.

Não sabe se está de frente à imagem ou vice-versa. Questiona o pragmatismo e a própria resolução. Duvida da consciência e o faz novamente. Nada do que tenha visto se equipara ao que sente. Rebatem os pensamentos entre as figuras, tudo tão aleatório, mas de modo a abrir uma passagem. O rearranjo das partículas moleculares.

Logo após, os dedos que estavam sobre o vidro afundam em sua dissolução. A superfície assemelha-se a um colóide, que teima em se subverter à gravidade. Concomitante, adquirem movimento os animais e passam a esganar-se pelos podres frutos. Assustada, ela grita e reverbera seu eco na superfície, de volta para os tímpanos a perfurá-los. Deliciosa percepção transtornada. Não pode revirar os olhos, ou fingir que não o vê. É enlouquecedor.

De nada valem as verdades absolutas, nem o que lhe ensinaram. É como se a memória nunca existisse, nem tivesse noção das próprias faculdades. A pele reluz e os olhos também. O chamado é tão viciante, que não ousa questionar o prazer. Primeiro os dedos, depois os braços e as pernas. A epiderme sensitiva. As papilas, os pavilhões, as fossas e os orbitais. O rosto, o corpo e tudo mais.

Do outro lado, com os sentidos entorpecidos, o corpo cede à vertigem. Caída ao chão, as gramíneas alisam suas formas, sedentas. Então aproximam-se os insetos, larvas e demais voadores. Tem inicio a simbiose e só termina quando ela está entregue ao devaneio dos sentidos.

Pobre fêmea. Não sabe viver por si e lidar com o que vê, aquilo que transcende tudo e a todos. A gênese em si. Não é regida pelo tempo ou especulações científicas. O amante da inconstância. Sem nome ou forma. Não é leviano nem carrasco. Senhor da volúpia, detentor dos avos e partículas infinitesimais. Conhece suas ânsias e a natureza fraca que a faz manter-se fiel aos desejos mais mundanos. Permanecerá presa, até que venham buscá-la, em posse do que mais lhe é precioso. Não fora o fecho, nada disso teria acontecido.

 

 

Escrito por Marcel às 14h01
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